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Bijou, histórico cinema de rua de São Paulo, reabre suas portas em junho

Espaço na praça Roosevelt será tocado pelos fundadores do grupo teatral Os Satyros

O Cine Bijou, na praça Roosevelt, região central de São Paulo, em 1986. Foto: Homero Sergio/Folhapress

Publicado às 9h10

Folha de SP

O Cine Bijou, tradicional cinema de rua paulistano fundado nos anos 1960, vai reabrir as suas portas na segunda quinzena de junho. O espaço na praça Roosevelt, conhecido por exibir filmes autorais durante a ditadura, estava fechado desde 1996 e voltará à ativa, agora sob o comando de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, fundadores da vizinha companhia de teatro Os Satyros.

A proposta, segundo os dois, é manter o mesmo espírito de vanguarda que marcou a história do local.

“Vai ter muito filme de arte, muitas mostras temáticas, convidados ilustres e filmes brasileiros que não conseguem chegar ao circuito”, diz Cabral. Para García Vázquez, será mais um espaço de encontro do que uma sala comercial. “Porque a gente nunca vai conseguir competir com as tradicionais,” explica.

Os dois diretores começaram a alugar o espaço há poucos dias. Até então, ali funcionava o Teatro do Ator, que  aproveitava a estrutura original do cinema e acabou encerrando as atividades. “Isso não podia ser transformado numa igreja ou num bar. É o tipo de coisa que faria a cidade perder sua memória”, afirma Cabral.

Ele e García Vázquez, dois dos responsáveis pela atual cara da praça Roosevelt, fizeram uma proposta para alugar a sala, que mantém 88 das poltronas vermelhas de sua inauguração, em 1962. “O que fez com que o proprietário aceitasse foi o fato de que a gente iria manter a ideia original do Bijou”, diz Cabral.

Antes de reabrir o espaço, eles tocam uma pequena reforma, mais uma limpeza para trazer de volta o aspecto original do cinema. Alguns dos lustres que ladeiam o lugar são da época áurea do espaço; outros foram trocados. O forro, com círculos escavados, é bem característico da arquitetura das salas dos anos 1960 e 1970.

A tela, por onde passaram filmes hoje clássicos como “Perdidos na Noite” e “Laranja Mecânica”, precisa ser restaurada —nos anos em que o local serviu de teatro, ela acabou ficando escondida atrás da rotunda, numa espécie de depósito.

Nos primeiros meses de funcionamento do Bijou, a projeção dos filmes deverá ser feita com blu-ray. “A gente ainda não tem condições de ter o projetor que esse cinema merece, mas teremos em breve”, conta Cabral.

Nem ele nem García Vázquez desconhecem os infortúnios que cinemas de rua enfrentam em São Paulo, com o recuo de patrocinadores e as dificuldades de bancar as operações. Tanto o Belas Artes, na rua da Consolação, quanto o Cinearte, na avenida Paulista, vivem dificuldades.

“Não estamos iludidos”, afirma Cabral. “Sabemos que hoje menos gente vai ao cinema, principalmente para ver o tipo de filme que vai ser exibido aqui. Mas é um gesto até político.”

Durante a ditadura militar, o Cine Bijou funcionou como uma espécie de bastião cultural paulistano em tempos de opressão política, exibindo filmes autorais que não tinham muito espaço em salas tradicionais e que estavam constantemente sob os holofotes da censura. Colunista da Folha, Marcelo Coelho transformou as memórias que tem do cinema durante os anos 1970 no livro “Cine Bijou”.

Com a decadência do centro de São Paulo, entre as décadas de 1980 e de 1990, o espaço foi perdendo seus frequentadores até fechar as portas. A chegada dos grupos de teatro no início dos anos 2000, com a companhia Os Satyros como uma de suas pioneiras, foi o que transformou a outrora degradada praça Roosevelt no pulsante reduto boêmio paulistano.

García Vázquez lembra de alguns dos filmes a que assistiu naquela sala, nos anos 1980: “Blade Runner”, de Ridley Scott, e “Persona”, de Ingmar Bergman. Viu também ali “120 Dias de Sodoma”, de Pier Paolo Pasolini —curiosamente, o próximo trabalho da dupla de novos administradores do Cine Bijou tem muito a ver com esse longa italiano.

É que em junho os dois diretores filmam a versão deles para “120 Dias de Sodoma”, terceiro longa-metragem da carreira da dupla depois de “Hipóteses para o Amor e a Verdade” e “A Filosofia na Alcova”. A base é a mesma que orienta o filme de Pasolini e a peça homônima que encenam na Roosevelt, os escritos do marquês de Sade.

Com o grupo Os Satyros completando três décadas em 2019 —e há 19 anos fincado na Roosevelt—, Cabral reflete acerca da história da companhia paulistana.

“Quando começamos, não tínhamos lugar”, conta. “Éramos muito intelectuais para o teatro comercial, e muito pornográficos para o teatro intelectual. A sacada foi conseguir o nosso próprio espaço. Se você tem um, então faz o que quiser fazer nele.”

 

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