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Iluminação de SP esbarra em falta de postes, vandalismo e licitação parada

Se tiver aval da Justiça, prefeitura quer colocar lâmpadas de LED em toda a cidade em 18 meses

Área com problema de iluminação em Campos Elíseos, na região central de SP. Foto: Rubens Cavallari/Folhapress

Publicado às 9h10

Folha de SP

O engenheiro eletricista Paulo Ernesto Strazzi, 60, diretor técnico do Ilume (Departamento de Iluminação Pública), não acreditou no que viu quando chegou à avenida Jacu Pêssego, em Itaquera, no ano passado.

Dez postes de iluminação, serrados pela base, tinham sido roubados à noite, deixando às escuras um trecho da avenida na zona leste de São Paulo. “Eu me senti mal, péssimo, ao ver aquilo”, lembra Strazzi, que é o responsável pelo funcionamento de 605 mil luminárias espalhadas por 13 mil km de vias públicas.

Um mês depois, outros seis postes foram serrados, mas abandonados no canteiro central da avenida. Até então, o maior problema do Ilume era o roubo de fios e o vandalismo de marginais que praticam tiro ao alvo contra as luminárias. Só neste ano já foram destruídas 410.

Em 2018, foram roubados 306 km de fios na cidade de São Paulo, causando um prejuízo de R$ 7 milhões para a reposição do material.

“O pior prejuízo nem é financeiro, mas o da segurança dos moradoresque ficam no escuro, facilitando a ação dos marginais. Eles atacam não só a rede aérea mas também os circuitos subterrâneos. Às vezes, levamos uma semana para descobrir onde foi o roubo que causa curto circuitos. Nós temos o maior parque de iluminação pública do mundo, mas não temos segurança”, desabafa.

Os técnicos do Ilume já mapearam 50 pontos críticos em todas as regiões da cidade, próximos às várias cracolândias e redutos do crime organizado. Espalham-se pela baixada do Glicério, estão no Vale do Anhangabaú, bem em frente ao prédio onde fica a direção do Ilume, chegando até a avenida Mateo Bei, em São Mateus (zona leste). “A Guarda Metropolitana chega a prender, mas logo eles são soltos e voltam a agir.”

A ação mais ousada dos ladrões de luz foi em 2018, na ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira, na marginal Pinheiros, que tem iluminação cenográfica. “Não sei como, mas eles chegaram lá no alto, onde fica a casa de comando, e vandalizaram tudo. Levamos 90 dias para consertar o equipamento porque os controladores de luz são importados da Phillips holandesa”.

Strazzi conta com 60 equipes em veículos especiais e 180 funcionários, todos terceirizados, para cuidar dos serviços de manutenção. A previsão orçamentária para este ano é de R$ 584 milhões.

Manter em funcionamento a rede de iluminação pública é uma eterna luta entre gato e rato com os vândalos. Só a iluminação do viaduto Santa Efigênia já teve que ser trocada três vezes, desde que o diretor técnico assumiu o cargo, em maio do ano passado.

Desde 2011, no entanto, quando começou a substituição das lâmpadas de vapor de mercúrio por sódio, que duram em média 3.000 horas, caiu bastante o número de queixas contra o Ilume na rede 156 da prefeitura. “Nós já fomos considerados o pior serviço público da cidade, mas agora não estamos nem entre os dez primeiros”, comemora Strazzi.

O Ilume recebe em média 600 reclamações por dia, mas 30% se referem a falta de energia na rede elétrica, que é de responsabilidade da Enel, a sucessora da Eletropaulo.

Agora, o próximo projeto é substituir, em 18 meses, toda a iluminação da cidade por lâmpadas de LED, que são 30% mais eficientes, consomem 50% menos energia e dão uma sensação de segurança maior.

“Queremos tudo zerado, tudo novo, mas dependemos de um processo que está na Justiça”, diz o diretor.

Ele se refere a uma pendência jurídica com o consórcio FM Rodrigues, que detém o principal contrato de manutenção do Ilume (R$ 7 bilhões por 20 anos) e é contestado pelos concorrentes. Se tiver que ser feita nova licitação, não há prazo para iniciar a troca do equipamento. O processo está parado no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A cidade já tem uma demanda reprimida de 20 mil postes novos em áreas de urbanização recente, em sua maioria invasões, mas há três anos não são feitos investimentos. Enquanto a Justiça não chega a uma decisão, só podem ser feitos serviços de manutenção.

Esses problemas não existem na pacata Atibaia, a 65 km de São Paulo, onde Strazzi continua morando. Vai e volta todo dia, mas não abre mão da boa vida do interior.

Paulista de São José do Rio Preto, o engenheiro que cuida da iluminação pública de São Paulo formou-se na primeira turma da Unesp de Ilha Solteira e fez quase toda sua carreira na Cesp (Centrais Elétricas do Estado de São Paulo), onde trabalhou em programas pioneiros de eletrificação rural.

Apesar dos problemas que enfrenta, Strazzi ainda não desistiu do seu plano de embelezar o centro da cidade com iluminação cênica, como fez no Theatro Municipal. “Fico pensando: faz, não faz, mas para que fazer se depois destroem tudo?”

NÚMEROS DA ILUMINAÇÃO EM SP

605 mil luminárias estão espalhadas ao longo de 13 mil km de vias públicas em SP
306 km de fios foram roubados apenas em 2018
600 reclamações são recebidas por dia pelo Ilume, mas 30% se referem a falta de energia na rede que está intacta, ou seja, são problemas de responsabilidade da concessionária Enel
12 horas é o prazo dado ao cidadão para o reparo de iluminação em vias principais; nas demais, o limite é de 24 horas

FALTA DE MANUTENÇÃO GERA SENSAÇÃO DE INSEGURANÇA

De todos os serviços de zeladoria prestados pela Prefeitura de São Paulo, o de maior influência sobre o sentimento de segurança do paulistano é a instalação e manutenção do parque de iluminação da cidade.

O medo de ataque de criminosos é uma constante nas reclamações de quem passou por um apagão na rua de sua casa.

Para o motorista Flávio Ferreira, 53, a espera por uma solução dos dois postes quebrados na sua rua, no Itaim Paulista (zona leste), é mais do que um mero atraso num serviço público. “A rua já era escura e servia de rota de fuga para criminosos. Com os postes apagados, tudo piora”, reclama.

Ele diz ter acumulado dez protocolos de reclamação ao longo de 13 dias pelo apagão, solucionado na última semana. “Só consegui que arrumassem porque fiquei todo dia em cima. Mas já já vai quebrar de novo”.

Quem também ficou assustado com a falta de iluminação na sua rua em Itaquera foi o corretor de seguros Alexandre, 43. Ele diz que, durante os dez dias em que esteve sem luz, houve um assalto na sua rua.

“Isso aumenta a insegurança do morador e aumenta a oportunidade de ação dos criminosos”, afirma.
No Parque São Lucas, a psicóloga Tábata Silva, 31, diz que a demora para arrumar os postes da sua rua foi ainda mais longa: cerca de quatro meses. A luz só foi reestabelecida em março, depois de um Réveillon às escuras.

Tábata conta que seus vizinhos se preocupavam sempre que tinham que sair muito cedo, ainda sem luz do sol, ou voltar à noite para casa.

“Não acho que seja feita uma manutenção preventiva. Só arrumam quando o poste não tem mais jeito mesmo”, critica.

Segundo o Ilume, departamento da prefeitura responsável por contratar e fiscalizar a empresa FM Rodrigues, o prazo para reestabelecimento de um ponto de luz na capital é de 12 horas para vias principais e de 24 horas para ruas menores.

Mas os prazos são constantemente desrespeitados, dizem os paulistanos ouvidos pela Folha. Eles afirmam ainda que, ao insistir na reclamação, é comum receber a informação de que o problema já foi solucionado, quando na prática a rua permanece às escuras.

“A empresa pode até ter ido na minha rua, mas não mexeu em nada”, relata Ferreira.

Com Tábata, ocorreu o contrário. Depois de muito cobrar, um técnico fez o reparo da luz na sua rua.

Surpreendentemente, dias depois apareceu outro técnico para arrumar o poste que já estava funcionando.

Sem serviço, o funcionário quis ir embora, mas sofreu resistência dos moradores que queriam aproveitar sua presença e fazê-lo arrumar outro poste, na rua de baixo.

“Ele falou que não podia, disse que a ordem de serviço dele mandava ele arrumar o poste que já tinha voltado ao normal. Foi embora e deixou o outro apagado”, lembra.

Colaborou Fabrício Lobel

CONTATO
0800 779 0156 é o telefone para cobrar reparos na rede. O atendimento também é feito pelo telefone 156 e pelo aplicativo Ilumina SP


Série aborda aspectos da zeladoria da cidade
Este texto integra série sobre os problemas e dificuldades de cuidar de uma metrópole com 12 milhões de habitantes. Os desafios e as maneiras encontradas pela administração municipal para lidar com questões como buracos de rua estarão em pauta na série, que também trará dicas sobre como o cidadão pode ajudar.

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