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Rosana Paulino costura ciência, mulheres e negros em mostra na Pinacoteca

Exposição faz retrospectiva de 25 anos do trabalho da artista paulistana

Obra da série 'Paraíso Tropical'. Foto: Divulgação

Publicado às 10h

Folha de SP

Barulho de mar. No chão, fogueiras armadas sobre paletes com gravetos e pedaços de braços com as mãos pendendo para fora. Pequenos vídeos de uma praia. E, nas paredes, três fotos de uma mesma mulher negra, de frente, de costas e de perfil.

A instalação “Assentamento” faz parte da retrospectiva “Rosana Paulino: A Costura da Memória”, que revê, em três salas da Pinacoteca, 25 anos de produção da artista paulistana de 51 anos.

A obra remete aos navios negreiros. O som do mar era o único exterior ouvido pelos escravizados, forçados a ficar dias sem sair ao convés.

Na fogueira, os braços são lenha. “Um escravizado jovem podia durar só dois anos. Essa população sempre foi lenha para queimar. E ainda são”, diz Paulino enquanto caminha com a reportagem pela mostra ainda em montagem.

Além de fatiar a imagem do corpo da mulher escravizada —fotografias estas feitas pelo suiço-americano Louis Agassiz no Brasil— e costura-la de maneira que não se encaixam perfeitamente, ela insere em cada uma delas uma, digamos, visão do interior.

Na frontal, há um coração. No perfil, um útero, no qual é gestado um feto. Na fotografia de costas, vasos e artérias nas pernas se ramificam ao chão. “Quando se fala da escravidão, fala-se os números, mas vieram histórias, veio gente, tem um coração aqui”, diz a artista.

“Eu fico pensando no refazimento dessas pessoas, que ainda assim sobreviveram, ainda assim assentaram um país e uma cultura. Por isso uso essa costura forçada, porque não bate, esse é o drama da escravidão: essa conta não vai fechar nunca.”

Além das imagens de Agassiz, Paulino interfere em outras gravuras, fotos e desenhos do século 19 retirados de postais e cadernos de ilustrações de viajantes, como o do naturalista alemão Martius.

A ciência, em especial a biologia, como notará o visitante, tem presença marcante no trabalho de Paulino. A disciplina, que sempre interessou a artista, apaixonada por peixes e insetos, serviu como ferramenta de dominação dos brancos sobre negros e indígenas, com teorias como o poligenismo, que buscava dar um verniz científico a uma ideia de supremacia branca.

“A ciência não é neutra”, diz Paulino. “Classifica-se para explorar, para justificar a dominação de um povo por outro. O Brasil ainda está contaminado por essa ideia de racialização de uma pseudociência de 200 anos atrás que justifica a discriminação racial.”

A costura é técnica predominante no trabalho de Paulino. Dos patuás estampados com fotos de família de “Parede da Memória”, obra mais antiga na mostra, até a recente “Musa Paradisíaca”, que sutura imagens de uma mulher escravizada carregando um bebê e, na cabeça, bananas, a imagens de azulejo português e a trecho da letra de “Yes, Nós Temos Bananas”, de Braguinha.

“Minha mãe foi bordadeira, costurava em casa. Na faculdade comecei a olhar a linha não só como possibilidade de ligar um tecido ao outro mas também no que tem de simbólico”, diz a artista, que cursou artes visuais na USP. “O Brasil é um país Frankenstein. Se você pega partes diferentes e tenta juntar na marra, é claro que essa história não vai dar certo”, diz ela.

Na menor das salas da mostra há criaturas marrons feitas de argila que sobem pelas paredes como larvas com metade do corpo envolto por um fio branco que, em algumas, sai de sua boca.

As criaturas têm seios, mais que dois, às vezes seis ou oito. Na parede em frente, desenhos de figuras que deixam casulos e cascas para criar asas. É a metáfora da transformação, numa metamorfose feminina. Ali, Paulino diz que a questão de gênero e as linhas da costura são vistas por um olhar simbólico, da mulher que tece o próprio fio.

Paulino encerra na Pinacoteca um ano em que, não apenas ali como em diversos museus e instituições da cidade, as mostras de arte enfim se voltaram para artistas negros e mulheres.

“O Brasil tem muita dificuldade em acolher as diferenças, e se você fala disso é mimimi, frescura, vitimismo. Mas é uma questão de sobrevivência”, diz ela, que tem o trabalho todo perpassado por questões raciais e das mulheres. “Como artista, eu lido com o que me incomoda”, completa.

Para ela, exposições com artistas negros e mulheres atraem também um público novo para a arte. “As pessoas querem se ver, ver as suas histórias. Quando eu era estudante, não aguentava mais entrar no museu e não me ver ali. Me negavam a subjetividade o tempo todo”, conta.

Agora, com as portas abertas, o caminho é sem volta. “Seria como dizer ‘volta para a senzala’, ‘volta para a cozinha’.”

 

ROSANA PAULINO: A COSTURA DA MEMÓRIA

Quando: Abertura neste sábado (8); até 4/3/2019
Onde: Pinacoteca. Pça. da Luz, 2
Quanto: R$ 6, gratuito aos sábados

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