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USP tem tarde de manifestações pró e anti-Bolsonaro um dia após eleição dele

Ato de 20 pessoas em apoio ao novo presidente foi rebatido por outro, com mil, em defesa da democracia

Estudantes contrários a Jair Bolsonaro marcharam na Cidade Universitária da USP. Foto: Danilo Verpa/Folhapress

Publicado às 9h

Folha de SP

Dois grupos, um a favor de Jair Bolsonaro (PSL) e outro contrário, fizeram marchas dentro do campus da USP na tarde desta segunda-feira (29), promovendo uma disputa “ele sim” versus “ele não” entre os prédios da universidade, no Butantã (zona oeste).

O ato em apoio ao presidente eleito reuniu cerca de 20 pessoas —a maioria não estuda na USP. Organizado em resposta, um protesto “contra o fascismo” e pela democracia atraiu em torno de mil pessoas, segundo estimativa da guarda universitária.

​O evento “Marcha do Chola Mais”, marcado pelo Facebook para “cantar e comemorar” a vitória de Bolsonaro, recebeu mais de 2.800 confirmações de presença até a tarde desta segunda.

A previsão de que uma multidão comparecesse alarmou a direção e alunos da universidade, que temiam conflitos. A Polícia Militar acompanhou a manifestação, que no fim foi bem menor que o esperado.

Ao longo das últimas horas, se espalharam na internet suspeitas de possíveis ataques a estudantes contrários a Bolsonaro, além de ameaças de invasão ao prédio da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas).

A diretora da faculdade pediu ao reitor da USP,  Vahan Agopyan, providências para proteger os alunos e funcionários —inicialmente, a convocação no Facebook falava em encerrar a marcha na FFLCH. A socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda divulgou vídeo para tranquilizar a comunidade.

Diante do clima de pânico e do risco de confronto, a reitoria pediu reforço policial.

O número de pessoas na partida do ato pró-Bolsonaro, em frente à Poli-USP (Escola Politécnica), foi o mesmo que chegou ao encerramento, depois de aproximadamente 30 minutos de passeata, perto de uma das portarias do campus. Estudantes ouvidos pela reportagem falaram que, dos 20 participantes, a maioria era de fora.

Diretora da Poli, a Liedi Bernucci disse à Folha que reconhecia apenas dois alunos da faculdade entre os manifestantes. “O reitor está muito preocupado. Qualquer episódio de violência aqui seria um desgaste para a universidade, para a imagem da escola”, afirmou Liedi enquanto acompanhava a concentração do ato.

Os seguidores do capitão reformado criticavam o que chamam de doutrinação de esquerda nas universidades públicas e de perseguição a militantes de direita. Queriam “mostrar que a USP não é hegemônica da esquerda, dos comunistas”.

Um dos organizadores foi o deputado estadual eleito pelo PSL em São Paulo Douglas Garcia, 24, que não estuda na instituição. Cofundador do movimento Direita São Paulo, ele discursou no fim do ato e criticou o que classifica como uso de recursos públicos para difundir ideologias políticas.

De acordo com Garcia, o ato foi organizado a pedido de alunos da USP que se sentem intimidados a se declarar de direita no ambiente universitário. O evento na rede social foi criado pela página USP Livre, uma organização de estudantes identificados com o liberalismo econômico e o conservadorismo.

O parlamentar eleito disse que uma de suas primeiras ações no mandato estadual será propor uma CPI para investigar “a participação de movimentos de esquerda na universidade, contrários aos objetivos que a faculdade tem”.​

“A gente tem hoje dentro das universidades, infelizmente, um ambiente ditatorial, hostil, onde só a esquerda pode falar”, afirmou Garcia, antes de fazer uma defesa do Escola sem Partido. “Com Bolsonaro na Presidência, temos 100% de chance de esse projeto ser sancionado”.

Dez carros da PM, seis motos e pelo menos 15 agentes a pé acompanharam o trajeto da marcha. A corporação combinou com os organizadores que a passeata deixaria de passar em frente à FFLCH, como anunciaram antes na internet. Os dois atos não se cruzaram.

Estudantes responderam à passagem com risos à passagem do grupo, que agitava uma bandeira do Brasil e outra com a foto de Bolsonaro. Um dos participantes empunhava um “pixuleko” do ex-presidente Lula (PT), outro batia um tambor. Apesar das provocações, não houve hostilidade grave.

Os apoiadores do futuro presidente entoavam coros enquanto andavam: “Eu quero a minha Taurus” (referência à marca de armas de fogo), “Haddad, ladrão, perdeu a eleição”, “Ei, Manuela, vai pra Venezuela” (numa provocação à vice da chapa do petista, Manuela D’Ávila), “Xô, satanás, PT nunca mais”, “Lula, ladrão, vai mofar na prisão”.

No meio da caminhada, um rapaz com celular em punho, gritou: “Ô, galera, tem mais de 800 pessoas assistindo!”. Os colegas comemoraram a audiência da transmissão ao vivo na internet.

Enquanto isso, na faculdade —historicamente associada a causas progressistas e de esquerda—, alunos fizeram de última hora uma assembleia. Eles decidiram também sair pelo campus como sinal de resistência a Bolsonaro, segundo participantes.

Um incidente ocorreu quando um dos participantes do ato de apoio ao futuro presidente, já encerrado àquela altura, se aproximou de um grupo de antifascistas que compunham o movimento iniciado na FFLCH. De camiseta amarela com a bandeira do Brasil, ele levou um chute ao passar no meio dos rivais, na intenção de provocá-los.

O rapaz e uma jovem usando uma touca que só deixava os olhos à mostra discutiram. Os dois trocaram empurrões. O manifestante foi retirado por um funcionário da segurança da USP e depois se afastou voluntariamente.

“A USP foi um polo de resistência durante a ditadura. Os militantes de esquerda da universidade foram mortos, desapareceram”, lembrou Juliana Godoy, 19, aluna de ciências sociais e integrante do diretório central dos estudantes.

De acordo com ela, atos como o desta segunda são uma forma de se contrapor a ameaças à liberdade democrática representadas por Bolsonaro. O diretório ajudou a articular a passeata, que foi encerrada na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo).

Dentro do prédio, a multidão cantou refrões (“ele não, ele nunca, ele jamais”) e aplaudiu quando foi estendida uma faixa com os dizeres “não vão nos calar”. Um pano vermelho pendurado ao lado estampava em letras grandes a palavra “resistir”.

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